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Ricardo Patiño diz que seu governo tentará fazer novos contatos com o Reino
Unido para conseguir salvo-conduto
QUITO - A decisão do governo equatoriano de dar asilo ao fundador do
WikiLeaks, Julian Assange, desencadeou uma reação imediata de nações como a
Grã-Bretanha e a Suécia. Esse foi um dos tópicos tratados com o chanceler do
Equador, Ricardo Patiño, em uma entrevista exclusiva à BBC, poucas horas após o
anúncio da concessão de asilo a Assange.
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Erick Ilaquize/Reuters
Ricardo Patiño, chanceler do
Equador
A entrevista aconteceu em uma sala ao lado do escritório do chanceler. Em uma
foto que decora o local, Patiño aparece ao lado dos presidentes Hugo Chávez
(Venezuela) e Rafael Correa (Equador) e do líder cubano Fidel Castro.
BBC - O governo da Grã-Bretanha indicou estar
"desapontado" com a decisão equatoriana. Disse que não dará o salvo-conduto para
a a saída de Assange e o extraditará para a Suécia. O que o senhor tem a dizer?
Ricardo Patiño - Não entendemos a que se deve
uma decepção. Quando tenho alguém que me deve um nível de disciplina e não a
cumpre eu poderia me decepcionar. Mas os Estados são soberanos e nosso país
decide por si mesmo, toma suas próprias decisões. Pelo contrário, pensamos que o
Reino Unido deveria estar muito contente porque o governo do Equador atuou por
princípios e se preocupou em analisar seriamente a solicitação de asilo
diplomático.
BBC - Do jeito que as coisas estão no momento, o
senhor acredita que Julián Assange permanecerá muito tempo na embaixada
equatoriana em Londres?
Patiño - Esperamos que as negociações com o Reino Unido
permitam superar isso e que eles concedam o salvo-conduto. Eles deveriam dar (o
salvo-conduto), respeitando a decisão soberana do Equador, e se isso não
acontecer nós buscaremos os caminhos jurídicos internacionais para solicitar a
concessão do salvo-conduto. Não acreditamos que seja razoável que, sendo que um
governo soberano tomou a decisão de conceder o asilo político, se pretenda que
um cidadão fique confinado em uma embaixada durante um longo período.
BBC - Isso significa que o Equador fará um novo
contato oficial com o governo britânico depois do anúncio de concessão de asilo?
Patiño - Sim, será assim.
BBC - A Suécia, por sua vez, recusou-se a dizer que
em seu país não se garantem os direitos cidadãos...
Patiño - Pedimos à Suécia que garantisse que Assange não seria
extraditado para os Estados Unidos. Por outro lado é muito questionável o fato
de que se tenha concedido uma extradição (da Grã-Bretanha para a Suécia)
simplesmente para tomar declarações, quando já havíamos oferecido a
possibilidade de que as declarações fossem tomadas de Assange na sede
diplomática do Equador em Londres. O governo sueco nos disse que eles não
estavam dispostos a aceitar isso, quando o aceitam sempre em outros casos.
BBC - A decisão de dar asilo a Assange afetará as
relações do Equador com a Grã-Bretanha, a Suécia e os Estados Unidos?
Patiño - Esperamos que não, mas isso dependerá
da reação dos países. Acreditamos que se eles respeitarem o direito
internacional, das relações entre os países e da soberania que o Equador tem
para tomar suas decisões, então não deveriam ser afetadas. Se querem que o
Equador se submeta às suas posições, então possivelmente serão afetadas.
BBC - Por outro lado, quais países manifestaram seu apoio à decisão
do Equador?
Patiño - Recebi imediatamente
telefonemas dos chanceleres da Argentina, Perú, Bolívia e Venezuela,
manifestando seu apoio não exatamente à decisão específica, mas ao direito do
governo equatoriano de tomar uma decisão de forma soberana, e especialmente em
rejeição clara à ameaça intolerável que recebemos do Reino Unido de utilizar uma
lei interna para ingressar em nossa embaixada e prender o senhor Assange. Estão
sendo planejadas para os próximos dias reuniões regionais para dar uma resposta
coletiva a essa ameaça.
BBC - Analistas criticaram a concessão de asilo por parte do Equador
uma vez que Assange está sendo acusado de crimes comuns, sendo que a concessão
de asilo tem que estar relacionada a delitos políticos...
Patiño - É muito pouco provável que seja essa (acusação de que
Assange teria praticado crimes sexuais) a razão principal da extradição para a
Suécia. Nós pudemos determinar com bastante claridade que são outros os
elementos que explicam essa perseguição contra o senhor Assange e por isso
concedemos o asilo diplomático.
BBC - Com base em quais provas chegaram a essa conclusão?
Patiño - Revisando todas as informações. Foram iniciados processos
de forma secreta nos Estados Unidos, que foram revelados por algumas pessoas.
Além disso, há declarações de autoridades dos EUA, inclusive de uma candidata
republicana e de gente americana, que mostram que ele (Assange) deve ser
considerado como um inimigo não armado, como um objeto a destruir. É evidente em
uma grande lista de casos concretos que o objetivo é levar Assange e condená-lo.
BBC - O senhor Assange terá alguma restrição em relação à sua
condição de asilado?
Patiño - Propusemos a ele o mesmo tipo de condições que são
habituais nas relações internacionais, de não fazer declarações políticas que
possam afetar as relações do nosso país com nações amigas.
BBC - OS defensores de Assange poderiam dizer que dessa forma se
estaria acabando com a liberdade de expressão do fundador do WikiLeaks?
Patiño - Ele pode exercer seu trabalho, seguir desenvolvendo suas
atividades vinculadas ao WikiLeaks, ou como ele quiser, mas outra coisa é fazer
declarações políticas.
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