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POR O GLOBO / AGÊNCIAS INTERNACIONAIS
Em depoimento ante o Congresso, o diretor James Comey afirma que qualquer ligação entre o Kremlin e a campanha republicana pode ser investigada

James Comey presta depoimento durante audiência em Washington - NICHOLAS KAMM / AFP
WASHINGTON — Em uma audiência tensa no Congresso americano, o diretor do FBI, James Comey, e o diretor da Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA, na sigla em inglês), Mike Rogers, testemunham pela primeira vez sobre a possível influência russa nas eleições presidenciais do ano passado. Em seu discurso inicial, Comey confirmou que o FBI investiga possíveis esforços de Moscou para manipular a corrida eleitoral, afirmando que qualquer ligação entre a campanha do atual presidente, Donald Trump, e o governo russo pode ser alvo de investigação. Além disso, negou que haja evidências que comprovem as recentes acusações de Trump contra o seu antecessor, Barack Obama, de ter grampeado a Trump Tower em Nova York. Enquanto transcorria a sessão, a Casa Branca afirmou que não há evidência de conluio entre o presidente e Moscou.
A declaração de Comey sobre a Rússia confirma semanas consecutivas de relatos na imprensa, segundo os quais a polícia federal investigava a explosiva acusação de que o presidente russo, Vladimir Putin, esteve por trás da tentativa de interferir na votação de novembro para favorecer Trump. A expectativa dos republicanos era que Comey afirmasse que não há evidências de conluio entre o governo Trump e autoridades de Moscou. No entanto, ele disse que não forneceria mais detalhes sobre a investigação confidencial do FBI. Não quis definir um prazo para que os investigadores terminem seu trabalho, mas prometeu uma análise dos fatos independente, aberta e rápida.
— Estou autorizado pelo Departamento de Justiça a confirmar que o FBI está investigando os esforços do governo russo para interferir nas eleições presidenciais de 2016. Isso inclui investigar a natureza de qualquer conexão entre indivíduos associados à campanha de Trump e o governo russo. E se houve coordenação entre a campanha e os esforços russos. Isto também inclui uma conclusão sobre se algum crime foi cometido.
No ano passado, a Inteligência dos Estados Unidos acusou Moscou de ter hackeado servidores do Comitê Nacional Democrata para prejudicar a candidata Hillary Clinton, algo que a Rússia negou enfaticamente. No entanto, agências americanas nunca haviam comentado publicamente se estavam analisando os laços entre os integrantes da campanha de Trump e autoridades russas.
Durante uma árdua sessão de perguntas, em que foi duramente pressionado, Comey disse que a Inteligência Rússia usou um agente intermediário para se comunicar com o WikiLeaks, sem entrar em contato direto com o site responsável pelos vazamentos de conversas entre democratas durante a campanha presidencial. O diretor do FBI ainda confirmou que os russos tinham preferência por Trump e, no geral, Putin prefere a chegada de homens de negócios ao poder, porque acredita que seja mais fácil negociar com eles. Além disso, segundo Comey, a Rússia deseja ver mais Brexits (em referência à saída do Reino Unido da UE) acontecerem.
Pouco antes do início da audiência no Congresso, Trump usou o Twitter para negar as acusações de conluio com Moscou, classificando-as de "notícia falsa":
“(O ex-diretor de Inteligência) James Clapper e outros afirmaram que não há provas de conluio do Potus (siglas de ‘President of the United States‘) com a Rússia. Esta história é NOTÍCIA FALSA e todo mundo sabe. Os democratas inventaram e impulsionaram a história russa como desculpa por terem realizado uma terrível campanha. Grande vantagem no Colégio Eleitoral & perderam!”, escreveu Trump em uma série de tuítes.
Várias comissões do Congresso iniciaram investigações sobre o assunto, incluindo os comitês de Inteligência de Deputados e do Senado, que têm jurisdição sobre 17 agências de Inteligência do país, assim como as comissões de Justiça de ambas as câmaras. Muitos legisladores manifestaram sua frustração pela falta de cooperação com o FBI.
ACUSAÇÕES DE ESPIONAGEM
Além disso, Comey disse que o FBI e o Departamento de Justiça não conhecem informações que apoiem as recentes acusações de Trump contra o seu antecessor, Barack Obama. Pelo Twitter, o republicano acusou o ex-presidente de ter grampeado a sua luxuosa Trump Tower, arranha-céu em Manhattan que serviu como QG de campanha para o magnata durante a corrida eleitoral.
— Sobre os tuítes do presidente...eu não tenho informações que apoiem estes tuíte — disse. — E nós analisamos com muito cuidado no FBI. O Departamento de Justiça me pediu para compartilhar com vocês que a resposta é a mesma para todos os seus componentes.
Por sua vez, o diretor da Agência de Segurança Nacional (NSA), Michael Rogers, que também presta depoimento, negou que tenha pedido à Inteligência britânica para espionar Trump. Num grave incidente diplomático, a Casa Branca sugeriu que Obama havia usado a agência de Inteligência dos britânicos para secretamente grampear Trump, durante a campanha eleitoral no ano passado.
O problema começou quando um comentarista da "Fox News" afirmou que os britânicos estavam envolvidos na espionagem à Trump Tower, que serviu de quartel-general ao candidato republicano durante a corrida presidencial. Andrew Napolitano, o comentarista, disse no ar que Obama usou a agência de Inteligência britânica, conhecida como GCHQ, para espionar Trump.
Em sequência, Trump acusou Obama de ter ordenado um grampo em suas comunicações, e depois o porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, repetiu a informação de que o ex-presidente teria confiado a tarefa aos britânicos para driblar as restrições legais americanas.
A GCHQ rapidamente reagiu, chamando as acusações de “absurdas” e “totalmente ridículas”. Políticos britânicos se sentiram ultrajados e exigiram desculpas e retratações do governo americano.
Trump tentou responsabilizar a "Fox News" pela confusão. Numa coeltiva de imprensa com a chanceler federal alemã, Angela Merkel, ele disse que os interessados deveriam questionar a rede de TV. Num momento de descontração, ele ainda insinuou que tem em comum com Merkel o fato de ambos terem sido supostamente espionados.
— Pelo menos temos alguma coisa em comum, talvez — disse aos risos Trump na coletiva de imprensa após o encontro, quando questionado sobre as acusações não fundamentadas. — Às vezes me arrependo dos meus tuítes, mas muito raramente.
Em 2013, as revelações do ex-analista da CIA e da NSA Edward Snowden sobre espionagem em massa pelo governo americano mostraram que as comunicações de Merkel foram alvo de grampos da agência.
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