segunda-feira, 26 de maio de 2014

COMENTÁRIO: O legado da plena ignorância

Por Humberto Dantas - O Estado de São Paulo

A mistura partidária federativa e o terrorismo eleitoral são apenas dois dos pontos que costumam trazer desconforto para quem observa a nossa política atentamente. Em 2002, por exemplo, era Regina Duarte a ter medo do que Lula faria se ganhasse a presidência. Estrelou a campanha de José Serra (PSDB) e contribuiu para endossar o descontrole dos mercados. O petista foi hábil, escreveu uma carta falando que louvaria os contratos e traria estabilidade ao país, ganhou a eleição, cumpriu a promessa e, de quebra, atribuiu a crise daquele ano ao antecessor. O terrorismo foi utilizado da mesma forma nas campanhas de 2006 e 2010. O PT, dessa vez no papel de protagonista, afirmou que Alckmin e Serra, eleitos presidentes pelo PSDB, acabariam com o Bolsa Família. A pré-campanha de Dilma em 2014 parece seguir o mesmo rumo. Interessante notar que tanto tucanos quanto petistas já falaram mal desse programa. Mas o terrorismo só existe onde vige a plena ignorância. Acreditar em discursos radicais é coisa de quem realmente não acompanha a política. Mas e a mistura partidária?
Pois bem. No Maranhão a disputa pelo governo estadual vai colocar, de um lado, o PMDB da família Sarney, que mais uma vez contará com o apoio do PT, e de outro lado o PC do B, que provavelmente terá o PSDB em sua chapa. Em 2010 PT e DEM estiveram no mesmo barco vencedor. O PC do B perdeu uma eleição estranha em primeiro turno naquele ano, com o mesmo possível candidato de agora: Flávio Dino. Combatente da situação política no estado, ele aceitou ocupar a presidência da Embratur nos últimos anos, órgão ligado ao Ministério do Turismo, controlado por deputados federais do grupo do PMDB do Maranhão. Estranho o modo de se dizer contrário. Como deve ser enfrentar no plano estadual eleitoral os seus superiores no plano profissional federal? A confusão partidária só chega a estes níveis onde vige a plena ignorância.
Esta mesma ignorância permite que um herdeiro de senador, ou melhor, um suplente de senador, vá ao seu estado falar sobre o Bolsa Família em tom de terrorismo. Lobão Filho substitui seu pai, o ministro de Minas e Energia Edison Lobão, ambos do PMDB, no Senado. Recentemente foi acusado de fazer campanha antecipada ao afirmar em discurso, na cidade de Barra do Corda, que se eleito Aécio Neves acabará com o Bolsa Família. O mesmo filme de anos anteriores. Provavelmente porque o cidadão comum ainda entende o programa como dádiva divina e não como política pública desenhada para arrefecer mazela nacional. Ser contra ou a favor é da democracia, sonhar com o fim do programa em virtude de uma porta de saída decente é sonho distante, sobretudo porque há quem se beneficie da situação. Percebe? A condição que ilustra parte da vantagem que os políticos brasileiros tiram da situação não tem relação com o combate à pobreza, mas sim com a manutenção da ignorância. No Maranhão, de acordo com o IBGE, 50 dos cerca de 220 municípios do estado têm Índice de Incidência de Pobreza superior a 59,17%. Barra do Corda, cidade com mais de 80 mil habitantes é uma delas, com mais de 60%. No campo da educação o mesmo instituto mostra que em 2010, 12% dos moradores com 10 ou mais anos de idade nunca haviam frequentado a escola, e que 60,5% da população da mesma faixa etária não possui instrução ou tinha o ensino fundamental incompleto – algo a ser levemente relativizado pelo fato dessa etapa ser finalizada aos 14 anos. Seria possível imaginar que vivendo sob condições dignas os moradores ouvissem discursos desse tipo e seu agente precisasse ser questionado pela oposição? Como costuma cantar a banda de rock brasileira Titãs: você tem fome de que? A gente não quer só comida, o país precisa de educação política. A despeito de quem venha a governar essa nação.

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