OGLOBO.COM.BR
POR JÚNIA GAMA E FERNANDA KRAKOVICS
Entidades de classe mostram preocupação com interferência na Lava-Jato

O presidente Michel Temer e o novo ministro da Justiça Torquato Jardim - André Coelho / Agência O Globo 28-11-2016
BRASÍLIA - Convidado para o Ministério da Justiça, o ministro da Transparência, Torquato Jardim, sinalizou a ministros e interlocutores do presidente Michel Temer que terá um controle maior sobre o comportamento da PF de agora em diante. O novo ministro, no entanto, não definiu se isto significa uma troca no comando da Polícia Federal (PF). (TUDO SOBRE A "REPÚBLICA INVESTIGADA")
Ao presidente Michel Temer, Torquato disse que pretende conversar com o diretor-geral da PF, Leandro Daiello, antes de tomar qualquer decisão sobre a permanência dele no cargo. Segundo relatos, o futuro ministro da Justiça disse ao presidente que ainda não tem informações suficientes para um diagnóstico sobre a situação da PF e que não quer fazer nenhum gesto sem saber dos detalhes da situação interna na corporação.
Após se tornar alvo das investigações, Temer passou a dizer que há excessos por parte da Polícia Federal e que eles devem ser corrigidos. O presidente demonstrou forte incômodo, por exemplo, com o fato de a PF ter tentado tomar diretamente seu depoimento semana passada na investigação que apura a delação do dono da JBS, o empresário Joesley Batista. Para o presidente, é preciso combater o “voluntarismo de interpretação” na PF.
Entidades de classe criticaram a troca de comando no Ministério da Justiça e manifestaram preocupação com o que consideram uma tentativa de controlar a operação Lava-Jato. Em nota, a Federação Nacionais do Policiais Federais afirma esperar que o novo ministro “gerencie sua pasta com imparcialidade sem qualquer tentativa de interferência nas investigações da PF, especialmente na Operação Lava-Jato”.
Já o presidente da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF), Carlos Sobral, disse que a mudança pode ser a senha para uma eventual intervenção política na PF, com o propósito de esvaziar a Lava-Jato e outras investigações sobre corrupção.
— Não só o diretor geral, mas todo o comando da instituição. Quem nomeia essas pessoas é o ministro da Justiça. A troca do comando da instituição pode gerar atrasos, interferências ou interrupções nas investigações — afirmou.
O delegado lembra que, em recentes diálogos captados a partir da delação de executivos da JBS, os senadores tucanos Aécio Neves (MG) e José Serra (SP), ambos investigados na Lava-Jato, foram flagrados articulando a saída de Osmar Serraglio da Justiça. Segundo Sobral, um ministro da Justiça pode interferir de várias maneiras para enfraquecer a atuação da polícia. Uma delas é com o corte de verbas para grandes operações. Outra, é a indicação política para cargos estratégicos da instituição.
O novo ministro da Justiça deve ser pressionado por alas do governo que defendem um “freio de arrumação” no órgão, responsável pelas investigações da Lava-Jato:
— Em algum momento vai ter que mexer naquilo, não dá para ficar como está — afirmou um auxiliar de Temer. (Colaborou Jailton de Carvalho)
ÚLTIMAS DE BRASIL
Irmã de Aécio, Andrea Neves estaria recebendo regalias na prisão
Delegados temem intervenção política na PF para esvaziar Lava-Jato
Os ataques do novo ministro da Justiça à Lava-Jato
Análise: Torquato, uma escolha meio Dilma, meio Lula
Servidores da Transparência fazem ato contra Osmar Serraglio
Comentários:
Postar um comentário