Do blog do NOBLAT
Ruy Fabiano
Está claro que o quadro sucessório pré-instalado, em que figuram três candidatos egressos da base governista – Dilma Roussef, Ciro Gomes e Marina Silva -, não agrada o presidente Lula. Pior: ameaça seu projeto de fazer o sucessor.
Se, antes dessa fragmentação, o pré-candidato oposicionista, José Serra, já era o favorito, com ela suas chances aumentam.
A pulverização na seara governista pode até eleger um oposicionista no primeiro turno. Lula, por isso mesmo, quer uma sucessão plebiscitária, como as que o elegeram, em 2002 e 2006.
Quer o confronto entre ele e Fernando Henrique, um estratagema engenhoso, que, em vez de pôr em exame o seu governo, ponha o do antecessor, fora de cena há oito anos e sem a mesma visibilidade midiática de seu oponente.
O marketing do PT está pronto e é triunfalista: o atual governo fez o país crescer, reduziu a pobreza, venceu a crise, descobriu o pré-sal e, de quebra, fez com que o Brasil fosse escolhido para sediar a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016.
Como toda narrativa romanesca exige um vilão, é aí que entra o governo FHC, a ser apresentado como o das privatizações duvidosas, que reduziram o patrimônio do país e o entregaram ao capital estrangeiro voraz.
Parece discurso da UNE dos anos 60, mas deu certo contra Geraldo Alckmin e será reativado no ano que vem.
As celebrações do governo Lula, todas elas, são colheitas de plantios anteriores, de uma política econômica que o PT combateu por todo o tempo em que esteve na oposição.
As privatizações são expostas como um estigma, mas seus efeitos celebrados triunfalmente: a expansão da telefonia, a estabilidade econômica, a balança comercial, a pujança da Vale do Rio Doce, cujo faturamento e nível de emprego cresceram tanto que o governo quer agora indicar seu presidente.
E por aí afora. Mas, como a maioria não junta uma coisa com a outra, é possível celebrar as conseqüências e, simultaneamente, condenar as causas.
Uma eleição plebiscitária empobrece a campanha. Torna-a mais adjetiva e menos substantiva. Não há idéias, apenas insultos.
Lula, há dias, festejou o fato de a próxima campanha só dispor de candidatos de esquerda. Considerou um avanço, quando, na verdade, é um recuo. Isso porque não expressará a totalidade da sociedade brasileira, que tem considerável viés conservador.
O debate político brasileiro empobreceu a tal ponto que muitos supõem que o que não é esquerda é necessariamente direita, quando entre um extremo e outro há múltiplos entretons, com contribuições importantes a dar ao debate político.
Eleição plebiscitária é duelo de slogans e panfletos, manejados por marqueteiros. É eleição burra.
No momento em que os países mais desenvolvidos constatam a impropriedade e insuficiência dos conceitos de direita e esquerda, a América do Sul os reaviva, de maneira confusa.
O próprio Lula contribui para a confusão. Disse certa vez que “jamais fui de esquerda” e que sempre foi “apenas um torneiro-mecânico”.
Chegou a dizer que quem continua socialista depois dos 50 anos tem problemas mentais, o que deve ter soado estranho aos ouvidos de Oscar Niemeyer e José Saramago, que chegaram a festejar Lula como um triunfo socialista.
Dilma Roussef, a candidata de Lula, já disse que defenderá o nacionalismo e o socialismo. O último personagem a juntar essas duas correntes num só partido, o nacional-socialismo, causou estragos gerais e não foi bem-sucedido.
Há uma confusão conceitual que a campanha plebiscitária tende apenas a aumentar.
Lula disse que, como faltam ainda alguns meses para a campanha (não necessariamente para ele, que já a deflagrou há um ano), há condições de maturá-la e chegar ao ideal (dele) de um candidato único do governo.
O fato de Ciro Gomes ter trocado seu título de eleitor do Ceará para São Paulo indica que está aberto a negociações, para trocar sua candidatura a presidente pela de governador de São Paulo. Se não estivesse aberto, não o faria.
As eleições são o momento alto da democracia, em que a sociedade é chamada a exercer pelo voto sua prerrogativa de julgar os governantes, separando o joio do trigo.
Num país politizado, opta-se pelo trigo; num despolitizado, como o nosso, a vantagem é do joio. Numa eleição plebiscitária, em ambiente despolitizado, o joio vence, não importa o resultado.
Ruy Fabiano é jornalista
Se, antes dessa fragmentação, o pré-candidato oposicionista, José Serra, já era o favorito, com ela suas chances aumentam.
A pulverização na seara governista pode até eleger um oposicionista no primeiro turno. Lula, por isso mesmo, quer uma sucessão plebiscitária, como as que o elegeram, em 2002 e 2006.
Quer o confronto entre ele e Fernando Henrique, um estratagema engenhoso, que, em vez de pôr em exame o seu governo, ponha o do antecessor, fora de cena há oito anos e sem a mesma visibilidade midiática de seu oponente.
O marketing do PT está pronto e é triunfalista: o atual governo fez o país crescer, reduziu a pobreza, venceu a crise, descobriu o pré-sal e, de quebra, fez com que o Brasil fosse escolhido para sediar a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016.
Como toda narrativa romanesca exige um vilão, é aí que entra o governo FHC, a ser apresentado como o das privatizações duvidosas, que reduziram o patrimônio do país e o entregaram ao capital estrangeiro voraz.
Parece discurso da UNE dos anos 60, mas deu certo contra Geraldo Alckmin e será reativado no ano que vem.
As celebrações do governo Lula, todas elas, são colheitas de plantios anteriores, de uma política econômica que o PT combateu por todo o tempo em que esteve na oposição.
As privatizações são expostas como um estigma, mas seus efeitos celebrados triunfalmente: a expansão da telefonia, a estabilidade econômica, a balança comercial, a pujança da Vale do Rio Doce, cujo faturamento e nível de emprego cresceram tanto que o governo quer agora indicar seu presidente.
E por aí afora. Mas, como a maioria não junta uma coisa com a outra, é possível celebrar as conseqüências e, simultaneamente, condenar as causas.
Uma eleição plebiscitária empobrece a campanha. Torna-a mais adjetiva e menos substantiva. Não há idéias, apenas insultos.
Lula, há dias, festejou o fato de a próxima campanha só dispor de candidatos de esquerda. Considerou um avanço, quando, na verdade, é um recuo. Isso porque não expressará a totalidade da sociedade brasileira, que tem considerável viés conservador.
O debate político brasileiro empobreceu a tal ponto que muitos supõem que o que não é esquerda é necessariamente direita, quando entre um extremo e outro há múltiplos entretons, com contribuições importantes a dar ao debate político.
Eleição plebiscitária é duelo de slogans e panfletos, manejados por marqueteiros. É eleição burra.
No momento em que os países mais desenvolvidos constatam a impropriedade e insuficiência dos conceitos de direita e esquerda, a América do Sul os reaviva, de maneira confusa.
O próprio Lula contribui para a confusão. Disse certa vez que “jamais fui de esquerda” e que sempre foi “apenas um torneiro-mecânico”.
Chegou a dizer que quem continua socialista depois dos 50 anos tem problemas mentais, o que deve ter soado estranho aos ouvidos de Oscar Niemeyer e José Saramago, que chegaram a festejar Lula como um triunfo socialista.
Dilma Roussef, a candidata de Lula, já disse que defenderá o nacionalismo e o socialismo. O último personagem a juntar essas duas correntes num só partido, o nacional-socialismo, causou estragos gerais e não foi bem-sucedido.
Há uma confusão conceitual que a campanha plebiscitária tende apenas a aumentar.
Lula disse que, como faltam ainda alguns meses para a campanha (não necessariamente para ele, que já a deflagrou há um ano), há condições de maturá-la e chegar ao ideal (dele) de um candidato único do governo.
O fato de Ciro Gomes ter trocado seu título de eleitor do Ceará para São Paulo indica que está aberto a negociações, para trocar sua candidatura a presidente pela de governador de São Paulo. Se não estivesse aberto, não o faria.
As eleições são o momento alto da democracia, em que a sociedade é chamada a exercer pelo voto sua prerrogativa de julgar os governantes, separando o joio do trigo.
Num país politizado, opta-se pelo trigo; num despolitizado, como o nosso, a vantagem é do joio. Numa eleição plebiscitária, em ambiente despolitizado, o joio vence, não importa o resultado.
Ruy Fabiano é jornalista
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