domingo, 8 de dezembro de 2013

COMENTARIO: Malandro até na Papuda



Coluna A Tarde
Por Samuel Celestino

O julgamento e a condenação dos mensaleiros pelo Supremo Tribunal Federal determinaram um marco no Judiciário brasileiro que era tido e em prosa cantado como um Poder que ficava à margem e não alcançava ricos e políticos. O colegiado mudou radicalmente tal interpretação, que não estava errada, pelo contrário, e determinou um novo momento da Justiça brasileira, agora alcançável a brancos, negros, pobres, ricos e, principalmente os políticos. Mais quatro mensaleiros foram presos na quinta feira - Valdemar da Costa Neto que, no embalo, renunciou ao seu mandato de deputado federal, os ex-deputados Pedro Correia e o Bispo Rodrigues e, mais, Vinícius Samarane. Cada preso significa uma vitória do Supremo, que ainda tem uma leve influência de quem indica, no caso o presidente(a) da República.
Imagina-se que a influência mais cedo ou mais tarde chegará ao fim, na medida em que os brasileiros exijam das autoridades a sua cidadania plena, sem que haja proteção a quem quer que seja. E que o Executivo entenda que deve ficar distante do Poder Judiciário. Do Legislativo é difícil. Os dois poderes se misturam. Há um conluio entre eles, de sorte que os partidos que oferecem apoio à base política do governo recebem como “presentes”, ou contrapartida, ministérios, cargos importantes em instituições e empresa, como a Petrobrás, por exemplo. A meritocracia fica distante de tais escolhas porque tanto o Legislativo com o Executivo têm origens idênticas: no voto popular a partir de partidos políticos. O que fazem o presidente, os governadores e os prefeitos? Teriam que evitar que a corrupção invadisse o setor público. Com vigilância não é difícil. Espera-se que, mais cedo do que tarde, realize-se neste País uma reforma política profunda que, pelo menos dificulte os bandidos colarinhos brancos.
Esta reforma poderá evitar, no que for possível, a corrupção, quando se impedir que o setor privado-empresarial patrocine campanhas políticas, a não ser individualmente, ou seja, através de cidadãos que queiram doar, mas com limites pequenos para os donativos. Presume-se que o afastamento de grandes ou médias empresas afastará a troca de favores a partir do dinheiro público, com a concessão de vantagens. Mas será impossível impedir a corrupção, como a interferência de políticos, ministros e seus principais assessores a interesses empresarias, sempre em troca de vantagens pecuniárias. Será aí que se espera, e muito, do Poder Judiciário que acaba de dar as primeiras demonstrações de que pode agir, indiferente de quem sejam os corruptos, levando-os à prisão.
Vai ser uma missão difícil, mas, a partir de denúncias de terceiros; de investigações da Polícia Federal e da ação (que já ocorre) no Ministério Público, além da imprensa, será possível evitar as tamoias, ou, mais do que isso, levar à condenação dos corruptos, diminuindo substancialmente a ação dos ratos à arca pública. Ainda agora, dentro do presídio da Papuda, José Dirceu, o incorrigível, foi capaz de articular uma forma para ficar no bem-bom com um emprego num hotel de Brasília. Errou porque foi demasiadamente guloso e anunciou que seria remunerado com R$20 mil por mês, salário que poucos ganham no País. Levantou de imediato suspeitas.
Coube, então, à imprensa fazer a sua parte através do jornalismo investigativo e vasculhar o quem estava por trás do Hotel Saint Peter. Nada menos do que um sócio, irmão de um presidente de partido, o PTN, que dava sustentação política à presidente Dilma Rousseff cuja participação societária era de 1 real. Nada mais, nada menos. O presidente do Hotel, verificou-se, morava no Panamá e para lá se dirigiu a investigação da imprensa. Encontrou um senhor de meia idade que lavava seu carro distraidamente, numa rua de classe média baixa, que falou apenas o necessário e disse que não poderia ir além porque “poderia perder o seu emprego”. Tratava-se de um auxiliar de escritório de um escritório de advocacia.
O emprego de José Dirceu escafedeu-se, evaporou-se. O incrível é como ele é capaz de, preso no presídio da Papuda, articular vantagens para usufruir. Desmascarado, mas uma vez desmoralizado publicamente, culpou (como sempre os petistas fazem) a imprensa e não tinha mais nada o que fazer do que renunciar ao emprego graúdo e gostoso num hotel de categoria somado a uma remuneração de poucos. Coitado do pobre Dirceu...
Este fato é uma clara demonstração de que a Justiça deve estar, a partir do julgamento do mensalão, sempre a postos para abrir processos e condenar corruptos. Somente com a repetição de casos semelhantes será possível diminuir –apenas diminuir porque a corrupção não tem jeito – os malandros federais, como disse Chico Buarque numa de suas letras – que praticam a corrupção sempre na certeza de que ficarão impunes. E o pior é que, na maioria das vezes, eles têm razão. Vivemos (ainda) na Casa de Noca.
*Coluna de Samuel Celestino no jornal A Tarde deste domingo (8).



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