Do blog do NOBLAT
O curioso é notar a emergência desse Lula complicado num cenário não de dificuldade, mas de relativa bonança, de favoritismo. Se há gente que sabe lidar melhor com o fracasso do que com o sucesso, talvez estejamos diante de um exemplo
Por Alon Feuerweker
Ninguém ganha eleição por pontos. Mesmo se liderar as pesquisas toda a campanha, o que vale é o dia. E se no dia tiver menos votos, perdeu. Eleições ganham-se, portanto, na base do nocaute. E quem nocauteia é o eleitor na urna.
Mas é difícil suportar uma luta em desvantagem. Não é missão para qualquer um. Talvez para um Muhammad Ali, que aguentou bem o favoritismo e a predominância física de George Foreman em 1974 no Zaire. Ali ganhou por nocaute. Talvez a luta de boxe mais famosa de todos os tempos.
O PT está vencendo o combate por pontos nesta eleição, e há bom motivo. A campanha convergiu com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, apoiado por três em cada quatro moradores do país em idade de responder às pesquisas.
Faltaram pouco mais de três pontinhos para a fatura ser liquidada no primeiro turno. E o segundo turno vem, na política, desenvolvendo-se razoavelmente para o PT, desde que que Marina Silva e o PV decidiram não pender em bloco para nenhum lado. Na teoria, o PSDB precisaria atrair em massa os eleitores da candidata verde no primeiro turno para virar o jogo.
Mas neste boxe particular da reta final um detalhe chama a atenção e já registrei aqui. Registro de novo. Quem está na frente, o PT, anda estabanado, sem maior capacidade de autocontrole. Já quem vem atrás, o PSDB, exibe mais disciplina e método do que seria natural no contendor que vai perdendo por pontos.
Um exemplo é o caso dos objetos atirados contra o candidato do PSDB no Rio esta semana, com as consequências conhecidas. O PT tem uma propensão a aceitar bem que certas diferenças políticas sejam resolvidas na base da pressão verbal e física pela “militância”. É visto como elemento constitutivo da luta política. Coisa quase orgânica.
E vem sendo reforçado por Lula nos últimos dias.
Mas qual é o limite aceitável para a pressão física ou verbal? Qual é o peso máximo, a consistência, o formato que podem ter os objetos para serem impunemente atirados contra uma candidata, ou candidato, a presidente da República?
No futebol do Reino Unido, os conflitos nos estádios só tiveram fim, depois de algumas tragédias, quando até as transgressões leves passaram a ser punidas com sanções pesadas. Concluíram que era melhor prevenir do que remediar. Resolveram tão bem que você vê um jogo do Campeonato Inglês pela televisão e nota que ali não há alambrados.
Aqui não. Infelizmente, os índices de popularidade e o temor de ver seu grupo fora do poder parecem ter levado o presidente da República a um estado de regressão. Sai de cena o Lula produzido pelas décadas de militância sindical e política e entra no palco um Lula irreconhecível. Parecido apenas com alguns adversários que Lula precisou enfrentar no passado.
E o curioso -como também já escrevi aqui- é notar a emergência desse Lula complicado num cenário não de dificuldade, mas de relativa bonança, de favoritismo. Se há gente que sabe lidar melhor com o fracasso do que com o sucesso, talvez estejamos diante de um exemplo.
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