Do UOL Notícias*
Guilherme Balza
Guilherme Balza
Primeira mulher a governar um país latino-americano, a atual presidente do Chile, Michelle Bachelet, encerra seu mandato com mais de 80% de aprovação entre os chilenos. Neste domingo (17), no segundo turno da eleição presidencial, Bachelet enfrentará um desafio semelhante ao que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva passará em outubro: será testada sua capacidade de transferir votos a Eduardo Frei Ruiz-Tagle, candidato de sua coligação, a Concertación, coalizão de centro-esquerda que governa o Chile há 20 anos, desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).
Frei disputa a sucessão presidencial com o bilionário Sebastian Piñera, da coligação de centro-direita Coalizão pela Mudança pelo Partido Renovação Nacional, o favorito para vencer o pleito. No primeiro turno, Piñera obteve 44% dos votos, contra 29,6% de Frei, 20,13% do independente Marco Enríquez-Ominami e 6,21% de Jorge Arrate, candidato do Partido Comunista.
Para Virgílio Arraes, doutor em História pela Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais, a população não vê grandes diferenças entre os dois candidatos na capacidade de promover mudanças sócio-econômicas, fator que pode ajudar a explicar porque a popularidade de Bachalet não resultou na vitória de Frei no primeiro turno. "O que definiu a votação até agora foi o marketing de campanha. Nesse sentido, Piñera conseguiu mobilizar a população por ser um empresário dinâmico, no âmbito privado gerar milhares de empregos", avalia.
Após receber o apoio de Arrate e Ominami, Frei, que presidiu o Chile entre 1994 e 2000, subiu nas pesquisas e alcançou 49,1% das intenções de voto, contra 50,9% de Piñera, segundo a última pesquisa eleitoral publicada no diário "La Tercera". Para ajudar ainda mais o candidato da Concertación, Bachelet deu ontem (14) a maior demonstração de apoio à sua candidatura, declarando abertamente o seu voto em Frei, e fazendo críticas veladas ao candidato direitista.
"Frei é uma pessoa honesta. Ele tinha muitos negócios, mas os passou adiante. Separou os negócios da política e fez isso não depois de eleito. Ele tem inteligência, experiência e coragem", disse a presidente, que pretende se candidatar ao cargo novamente daqui a quatro anos, em entrevista à rádio Cooperativa. Bachelet acrescentou afirmando que um presidente com negócios privados pode "limitar o necessário pensamento no interesse público".
Segundo Arraes, a declaração de voto de Bachelet, que em 2005 derrotou justamente Piñera no segundo turno, poderá ser decisiva nesse momento. "A Concertación tenta desesperadamente garantir mais um mandato, ainda que haja algumas diferenças entre os grupos do Frei [que é do Partido Democrata Cristão, ala mais conservador dentro da coalizão] e da Bachelet [do Partido Socialista]", diz.
Candidato bilionário
Na mesma fala em que explicitou o voto em Frei, a presidente fez referência ao fato de Piñera não ter abandonado seus negócios antes de se tornar candidato. Com uma fortuna avaliada em US$ 1,2 bilhão pela Forbes, o direitista é acionista majoritário da LAN Airlines --maior empresa aérea do Chile--, dono da rede de televisão Chilevisión, além de ser acionista e diretor do Colo Colo, clube de futebol mais popular do país.
No último debate transmitido pela televisão, contudo, Piñera afirmou que se livrará de parte dos negócios: "já disse um milhão de vezes e volto a dizer: vou vender a LAN antes de assumir como presidente. A Chilevisión será transferida para uma fundação sem fins lucrativos, mas continuarei como acionista e diretor do Colo Colo", disse.
O candidato da oposição de direita também respondeu às declarações de Bachelet. "Como cidadã, ela tem o direito a ter sua opinião e preferência, mas acho que um presidente não deve nunca, especialmente a três dias da eleição, esquecer que é presidente de todos os chilenos", retrucou.
Concertación "desgastada"
Durante a campanha, as principais promessas de Piñera foram a criação de um milhão de empregos, o incentivo à iniciativa privada, o enfrentamento ao crime e ao narcotráfico e a melhoria dos sistemas de saúde e educação. O candidato da direita também se apoiou em um suposto desgaste da Concertación, assumido, ao menos em parte, até pelo próprio Frei.
"O Chile é outro em 20 anos, mas evidentemente há desgaste, há erros. Hoje em dia, que partido, que coalizão pode dizer que governou 20 anos consecutivos em uma democracia?", disse Frei, que é filho do também ex-presidente Eduardo Frei Montalva. Não obstante, o centro-esquerdista defende a continuidade do Concertación para aprofundar conquistas sociais e ampliá-las à classe média.
E recebe o endosso de Bachelet: "não dá no mesmo quem vai governar o país, porque as conquistas, para que se transformem em progressos persistentes, devem ser sustentados no tempo", afirmou, direcionando sua fala aos que pretendem votar em branco ou nulo.
Relação com a ditadura
Diferente de outros países que também sofreram com ditaduras, no Chile há 300 condenados por estes crimes, inclusive o chefe da polícia secreta de Augusto Pinochet, Manuel Contreras.
A relação do próximo governo com os anos de chumbo é outro ponto polêmico da disputa presidencial. Bachelet, cujo pai foi morto durante a ditadura chilena, inaugurou nessa semana o Museu da Memória e dos Direitos Humanos, em homenagem às vítimas do regime autoritário. Já Piñera se aliou à ultra-conservadora União Democrata Independente, que apoiou o regime de Pinochet. "O grupo do Piñera representa uma face renovada da direita tradicional chilena, uma direita que não é ligada ao Estado e aos militares, e sim ao setor civil e privado", afirma Virgílio Arraes.
Piñera promete, no entanto, que caso seja eleito "não haverá nenhum ministro do governo militar". O candidato de centro-direita ponderou e disse também não ser "um delito nem um pecado ter colaborado de forma leal e honesta com o regime de Pinochet, desde que não tenham sido cometidas violações aos direitos humanos".
Frei disputa a sucessão presidencial com o bilionário Sebastian Piñera, da coligação de centro-direita Coalizão pela Mudança pelo Partido Renovação Nacional, o favorito para vencer o pleito. No primeiro turno, Piñera obteve 44% dos votos, contra 29,6% de Frei, 20,13% do independente Marco Enríquez-Ominami e 6,21% de Jorge Arrate, candidato do Partido Comunista.
Para Virgílio Arraes, doutor em História pela Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais, a população não vê grandes diferenças entre os dois candidatos na capacidade de promover mudanças sócio-econômicas, fator que pode ajudar a explicar porque a popularidade de Bachalet não resultou na vitória de Frei no primeiro turno. "O que definiu a votação até agora foi o marketing de campanha. Nesse sentido, Piñera conseguiu mobilizar a população por ser um empresário dinâmico, no âmbito privado gerar milhares de empregos", avalia.
Após receber o apoio de Arrate e Ominami, Frei, que presidiu o Chile entre 1994 e 2000, subiu nas pesquisas e alcançou 49,1% das intenções de voto, contra 50,9% de Piñera, segundo a última pesquisa eleitoral publicada no diário "La Tercera". Para ajudar ainda mais o candidato da Concertación, Bachelet deu ontem (14) a maior demonstração de apoio à sua candidatura, declarando abertamente o seu voto em Frei, e fazendo críticas veladas ao candidato direitista.
"Frei é uma pessoa honesta. Ele tinha muitos negócios, mas os passou adiante. Separou os negócios da política e fez isso não depois de eleito. Ele tem inteligência, experiência e coragem", disse a presidente, que pretende se candidatar ao cargo novamente daqui a quatro anos, em entrevista à rádio Cooperativa. Bachelet acrescentou afirmando que um presidente com negócios privados pode "limitar o necessário pensamento no interesse público".
Segundo Arraes, a declaração de voto de Bachelet, que em 2005 derrotou justamente Piñera no segundo turno, poderá ser decisiva nesse momento. "A Concertación tenta desesperadamente garantir mais um mandato, ainda que haja algumas diferenças entre os grupos do Frei [que é do Partido Democrata Cristão, ala mais conservador dentro da coalizão] e da Bachelet [do Partido Socialista]", diz.
Candidato bilionário
Na mesma fala em que explicitou o voto em Frei, a presidente fez referência ao fato de Piñera não ter abandonado seus negócios antes de se tornar candidato. Com uma fortuna avaliada em US$ 1,2 bilhão pela Forbes, o direitista é acionista majoritário da LAN Airlines --maior empresa aérea do Chile--, dono da rede de televisão Chilevisión, além de ser acionista e diretor do Colo Colo, clube de futebol mais popular do país.
No último debate transmitido pela televisão, contudo, Piñera afirmou que se livrará de parte dos negócios: "já disse um milhão de vezes e volto a dizer: vou vender a LAN antes de assumir como presidente. A Chilevisión será transferida para uma fundação sem fins lucrativos, mas continuarei como acionista e diretor do Colo Colo", disse.
O candidato da oposição de direita também respondeu às declarações de Bachelet. "Como cidadã, ela tem o direito a ter sua opinião e preferência, mas acho que um presidente não deve nunca, especialmente a três dias da eleição, esquecer que é presidente de todos os chilenos", retrucou.
Concertación "desgastada"
Durante a campanha, as principais promessas de Piñera foram a criação de um milhão de empregos, o incentivo à iniciativa privada, o enfrentamento ao crime e ao narcotráfico e a melhoria dos sistemas de saúde e educação. O candidato da direita também se apoiou em um suposto desgaste da Concertación, assumido, ao menos em parte, até pelo próprio Frei.
"O Chile é outro em 20 anos, mas evidentemente há desgaste, há erros. Hoje em dia, que partido, que coalizão pode dizer que governou 20 anos consecutivos em uma democracia?", disse Frei, que é filho do também ex-presidente Eduardo Frei Montalva. Não obstante, o centro-esquerdista defende a continuidade do Concertación para aprofundar conquistas sociais e ampliá-las à classe média.
E recebe o endosso de Bachelet: "não dá no mesmo quem vai governar o país, porque as conquistas, para que se transformem em progressos persistentes, devem ser sustentados no tempo", afirmou, direcionando sua fala aos que pretendem votar em branco ou nulo.
Relação com a ditadura
Diferente de outros países que também sofreram com ditaduras, no Chile há 300 condenados por estes crimes, inclusive o chefe da polícia secreta de Augusto Pinochet, Manuel Contreras.
A relação do próximo governo com os anos de chumbo é outro ponto polêmico da disputa presidencial. Bachelet, cujo pai foi morto durante a ditadura chilena, inaugurou nessa semana o Museu da Memória e dos Direitos Humanos, em homenagem às vítimas do regime autoritário. Já Piñera se aliou à ultra-conservadora União Democrata Independente, que apoiou o regime de Pinochet. "O grupo do Piñera representa uma face renovada da direita tradicional chilena, uma direita que não é ligada ao Estado e aos militares, e sim ao setor civil e privado", afirma Virgílio Arraes.
Piñera promete, no entanto, que caso seja eleito "não haverá nenhum ministro do governo militar". O candidato de centro-direita ponderou e disse também não ser "um delito nem um pecado ter colaborado de forma leal e honesta com o regime de Pinochet, desde que não tenham sido cometidas violações aos direitos humanos".
"Eu acredito que o Piñera não se esforçaria para levar adiante esse processo de conhecimento da memória histórica desse momento do Chile. Esse, aliás, é o diferencial da Concertación no poder com relação ao grupo 'neopinochetista'", diz o pesquisador.
Boas relações com o Brasil
Com a eleição de Piñera, a relação do Chile com parte dos países latino-americanos governados por esquerdistas, como Bolívia, Equador, Venezuela e Paraguai, atualmente bem próximos do governo de Bachelet, poderá ser alterada. O representante da Coalizão pela Mudança já declarou que não cederá "nem um milímetro" do território chileno ao Peru nem à Bolívia, enquanto Frei se mostrou disposto a seguir trabalhando na atual agenda bilateral com os bolivianos, que desejam contar com uma saída para o mar.
O Brasil é o principal parceiro econômico do Chile na América Latina e exerce papel fundamental de interlocutor com os argentinos e peruanos, uma vez que os chilenos têm divergências históricas com esses dois países. O comércio bilateral é intenso entre os dois países e atingiu, em 2008, US$ 8,9 bilhões. Os brasileiros vendem aos chilenos petróleo, aparelhos de telefones celulares e ônibus. Do Chile, o principal produto comprado é o cobre, depois o metanol e salmão.
Segundo análise do embaixador do Chile no Brasil, Álvaro Díaz, qualquer que seja o vencedor das eleições presidenciais chilenas, as boas relações entre Santiago e Brasília devem continuar. Tanto Frei, quanto Piñera se reuniram com o presidente Lula durante o primeiro turno e, segundo interlocutores, demonstraram respeito e simpatia pelo brasileiro.
Na opinião de Virgílio Arraes, o projeto de governo de ambos os candidatos não apresentam diferenças estruturais. "Nesses 20 anos não houve mudanças sociais significativas, mas elas ocorreram, embora não num ritmo que se espera de uma coligação de esquerda. Acredito que se o Piñera vencer, a intensidade na aplicação de políticas sociais ocorrerá em um ritmo mais lento", diz.
Parlamento equilibrado
Seja quem for o vencedor do segundo turno das eleições presidenciais no Chile, seu governo deverá negociar com a oposição, devido ao equilíbrio da forças representativas no Parlamento. As eleições legislativas, que ocorreram na mesma data que o primeiro turno do pleito presidencial, trouxeram poucas mudanças na composição do Parlamento chileno, a não ser o retorno dos comunistas após 36 anos de ausência.
O Senado renovou 18 de suas 38 cadeiras, e a distribuição foi equânime: nove cargos para a Concertación e para a Coalizão pela Mudança. No total, a Concertación terá agora 19 assentos e a direita 16, além dos três independentes que ora votam com a situação, ora com a oposição.
Na Câmara dos Deputados, a direita, embora tenha alcançado menos votos, terá 58 assentos contra 57 da Concertación, número que deve ser somado aos três deputados comunistas. Além disso, haverá três legisladores do Partido Regionalista Independente (PRI), que costumam apoiar a direita, e dois independentes.
Estão aptos para votar na eleição de hoje 8,3 milhões de chilenos, maiores de 18 anos, que se inscreveram voluntariamente como eleitores. Para os inscritos, a votação é obrigatória e a ausência pode implicar em multa. Chilenos no exterior não votam.
*Com informações da Agência Brasil e das agências internacionais
Boas relações com o Brasil
Com a eleição de Piñera, a relação do Chile com parte dos países latino-americanos governados por esquerdistas, como Bolívia, Equador, Venezuela e Paraguai, atualmente bem próximos do governo de Bachelet, poderá ser alterada. O representante da Coalizão pela Mudança já declarou que não cederá "nem um milímetro" do território chileno ao Peru nem à Bolívia, enquanto Frei se mostrou disposto a seguir trabalhando na atual agenda bilateral com os bolivianos, que desejam contar com uma saída para o mar.
O Brasil é o principal parceiro econômico do Chile na América Latina e exerce papel fundamental de interlocutor com os argentinos e peruanos, uma vez que os chilenos têm divergências históricas com esses dois países. O comércio bilateral é intenso entre os dois países e atingiu, em 2008, US$ 8,9 bilhões. Os brasileiros vendem aos chilenos petróleo, aparelhos de telefones celulares e ônibus. Do Chile, o principal produto comprado é o cobre, depois o metanol e salmão.
Segundo análise do embaixador do Chile no Brasil, Álvaro Díaz, qualquer que seja o vencedor das eleições presidenciais chilenas, as boas relações entre Santiago e Brasília devem continuar. Tanto Frei, quanto Piñera se reuniram com o presidente Lula durante o primeiro turno e, segundo interlocutores, demonstraram respeito e simpatia pelo brasileiro.
Na opinião de Virgílio Arraes, o projeto de governo de ambos os candidatos não apresentam diferenças estruturais. "Nesses 20 anos não houve mudanças sociais significativas, mas elas ocorreram, embora não num ritmo que se espera de uma coligação de esquerda. Acredito que se o Piñera vencer, a intensidade na aplicação de políticas sociais ocorrerá em um ritmo mais lento", diz.
Parlamento equilibrado
Seja quem for o vencedor do segundo turno das eleições presidenciais no Chile, seu governo deverá negociar com a oposição, devido ao equilíbrio da forças representativas no Parlamento. As eleições legislativas, que ocorreram na mesma data que o primeiro turno do pleito presidencial, trouxeram poucas mudanças na composição do Parlamento chileno, a não ser o retorno dos comunistas após 36 anos de ausência.
O Senado renovou 18 de suas 38 cadeiras, e a distribuição foi equânime: nove cargos para a Concertación e para a Coalizão pela Mudança. No total, a Concertación terá agora 19 assentos e a direita 16, além dos três independentes que ora votam com a situação, ora com a oposição.
Na Câmara dos Deputados, a direita, embora tenha alcançado menos votos, terá 58 assentos contra 57 da Concertación, número que deve ser somado aos três deputados comunistas. Além disso, haverá três legisladores do Partido Regionalista Independente (PRI), que costumam apoiar a direita, e dois independentes.
Estão aptos para votar na eleição de hoje 8,3 milhões de chilenos, maiores de 18 anos, que se inscreveram voluntariamente como eleitores. Para os inscritos, a votação é obrigatória e a ausência pode implicar em multa. Chilenos no exterior não votam.
*Com informações da Agência Brasil e das agências internacionais
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