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POR VIVAN OSWALD*
Sombra de Putin ganha vulto nos últimos meses da corrida e foca principalmente em Hillary
Porta entreaberta. Fontes na Rússia dizem que o presidente Vladimir Putin se diverte com a situação nos Estados Unidos; ele teria uma preferência pelo republicano Donald Trump, por sua tendência a olhar mais para dentro de seu país - POOL / REUTERS
PEQUIM - Talvez nem mesmo o presidente da Rússia, Vladimir Putin — com suas múltiplas jogadas midiáticas —, contasse ter papel de tamanho destaque nas eleições presidenciais americanas. Entre o vazamento de mais de 30 mil e-mails da campanha dos democratas e a participação na guerra da Síria, os americanos têm uma lista de queixas contra os russos e garantem que o Kremlin tem feito de tudo para influenciar o resultado das urnas. Ao que tudo indica, o líder russo aproveitou a tumultuada disputa americana para marcar posição no Oriente Médio antes que um novo mandatário seja escolhido. Esta reportagem inicia a série Planeta Atento, sobre o impacto da eleição americana em diversos países.
A sombra de Putin ganhou vulto nos últimos meses da corrida presidencial. Segundo especialistas, não é preciso muito esforço, porque o imaginário coletivo americano tem os russos como sucessores dos soviéticos numa Guerra Fria que teima em não terminar. Com a escalada entre os dois países, a troca de farpas se transformou em tiroteio de acusações mútuas muito sérias que levaram as pessoas a se questionarem sobre a possibilidade de um enfrentamento, um exagero, de acordo com analistas dentro e fora da Rússia — mesmo porque a disparidade de poder entre Estados Unidos e Rússia hoje é abissal.
Recentemente, a agência Sputnik News afirmou que outros três mil arquivos da campanha de Hillary Clinton foram divulgados pelo WikiLeaks.

TRUMP CONTA COM LEVE PREFERÊNCIA
Putin já negou envolvimento, assim como o ministro das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, que afirma não haver prova contra Moscou. Há quem diga que Putin se diverte com o momento nos EUA e vê na eleição uma espécie de vingança contra um país que tem o hábito de criticar o sistema político russo, que não abre espaço para a oposição. O Kremlin não disfarça uma certa preferência por Trump, embora saiba que o magnata é uma incógnita.
— Trump certamente causará mais problemas para os Estados Unidos e para as relações internacionais. E isso agrada. Além disso, ele parece que pretende se voltar mais para o público interno, o que também agrada — disse ao GLOBO Denis Volkov, especialista do instituto independente Iuri Levada.
Os russos tampouco têm simpatia por Hillary. Pesquisas de opinião indicam que preferem Trump na Casa Branca. Mas a verdade é que eles prestam menos atenção à eleição americana do que se imagina. Segundo Volkov, a grande maioria da população não liga para a política nos Estados Unidos, e sua opinião varia de acordo com o que mostra a televisão estatal. Entre aqueles que acompanham de perto as eleições, 35% dizem que Trump seria melhor no comando do rival histórico, enquanto 13% torceriam por Hillary.
Mas a má vontade com os Estados Unidos já teve tempos piores. O clímax foi no início de 2015, quando 80% dos russos viam o país de maneira negativa. Hoje, o percentual está em cerca de 60%.
Seja quem for o vencedor, o novo presidente americano já sabe que Putin é o que terá pela frente. A expectativa é a de que o líder russo se reeleja facilmente nas eleições de 2018. Ele terá o vencedor das eleições de 8 de novembro como seu terceiro interlocutor na Casa Branca.
— Putin tem uma taxa de aprovação entre 80% e 82%. E a confiança de 55%, o que ainda é bem alto — disse Volkov.
Nas eleições parlamentares deste ano, o partido do governo, Rússia Unida, perdeu votos em relação a 2011, mas ainda detém cerca de 75% dos assentos da Duma, a câmara baixa do Parlamento. Oficialmente, a diferença seria explicada pelo novo sistema de cálculo usado na Rússia.
No último debate da campanha, Hillary afirmou que “Putin preferiria ter uma marionete como presidente”, em referência a um relatório recente das agências de inteligência americanas que apontara a Rússia como responsável pelos hackers que vazaram para o público e-mails do comando de seu partido para supostamente influenciar as eleições. Trump, por sua vez, afirmou que Putin era “mais inteligente na Síria e na Ucrânia” do que o governo do democrata Barack Obama, e que não respeitava Hillary.
— Putin não tem respeito por esta pessoa. Você é a marionete — disse o republicano, que, mais tarde, afirmou: — Não conheço Putin.
EM 2009, UM BOTÃO DE ‘RESET’
O certo é que se Hillary sair vencedora, como parecem indicar as pesquisas de opinião, Estados Unidos e Rússia terão muitas arestas a aparar. A relação já não vai bem há alguns anos. Quando Barack Obama foi eleito, falava-se em um novo recomeço. Em março de 2009, a então secretária de Estado Hillary Clinton deu de presente ao ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Lavrov, uma caixa amarela com um botão vermelho. O que era para ser o botão de reset, que marcaria o recomeço das relações, tornou-se uma gafe ao ser traduzido para o russo de maneira incorreta pelos americanos como “sobrecarga”, e rapidamente corrigido por Lavrov, que compreendeu o mal-entendido.
Para muitos especialistas, o episódio resume o histórico do relacionamento entre os dois países. Nos últimos anos, embora os Estados Unidos tenham feito alguns gestos para se aproximar dos russos, eles também adotaram medidas incômodas, reforçaram o discurso da necessidade de se estabelecerem bases antimísseis da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) no quintal da Rússia, o que foi visto como provocação.
O Kremlin não esconde a má vontade com Hillary, a quem acusou, em 2011, de instigar protestos anti-Putin em Moscou. Em 2008, a então secretária afirmara que o ex-presidente George W. Bush não poderia ter “visto a alma de Putin ao olhar em seus olhos”, como ele disse após um encontro com o líder russo, porque o fato de Putin ser ex-agente da KGB “significa por definição que não tem alma”.
Por outro lado, segundo fonte ouvida pelo GLOBO, Trump é tão imprevisível que pode criar novas arestas e tumultuar mais o sistema internacional.
— No fim das contas, para a Rússia, assim como para o eleitorado americano, a escolha entre Hillary e Trump parece ser também o dilema entre dois males — afirmou.
*Especial para O GLOBO
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