segunda-feira, 17 de maio de 2010

COMENTÁRIO: A primeira vítima

Do blog do NOBLAT
Por ALON FEURWEKER

Mais de um mês de pasmaceira depois, o PT conseguiu pautar algo no debate eleitoral: o paralelo entre Dilma Rousseff e Nelson Mandela. Como era previsível, a jogada nasceu da genialidade mercadológica de Luiz Inácio Lula da Silva.
E foi sutil. Comparou sem comparar. Lula não disse que Dilma está para o Brasil como Mandela para a África do Sul. Seria bizarro. Dizer que o fez é acusação injusta. O presidente apenas comparou a circunstância de cada um na adesão à luta armada.
Repisou a tese de a luta armada no Brasil ter sido produto da ausência de caminho alternativo para combater a ditadura. Segundo essa versão particular e interessada da História, era a guerrilha ou a capitulação. O expediente é duplamente eficaz. Transforma automaticamente em heroi quem decidiu pegar em armas na transição entre as décadas de 1960 e 70 do século passado. Transforma automaticamente em omisso quem não o fez.
Se a luta armada era o único meio de resistir ao regime, quem não a adotou não resistiu ao regime. Uma lógica simples e direta. E completamente furada.
Os movimentos guerrilheiros foram definitivamente neutralizados até o início de 1974. Uma derrota militar completa. Mas em novembro daquele mesmo ano a ditadura começou a morrer, soterrada pelos milhões de votos dados ao Movimento Democrático Brasileiro (oposição) contra a governista Aliança Renovadora Nacional (Arena).
A guerrilha perdeu. Assim como o voto nulo, seu irmão siamês. Quem acabou com o autoritarismo, uma década depois, foi o movimento de massas pacífico e institucional, na combinação das mobilizações sociais e eleitorais. Também aqui uma lógica cristalina: se a luta armada era o único caminho para por fim à ditadura, e se as organizações guerrilheiras foram definitivamente batidas nos anos 70, por que razão o regime acabou removido uma década depois? Quem o removeu?
Haveria talvez a explicação mítica do exemplo que a guerrilha teria deixado, mesmo após sua liquidação. Ou da canalização, para outras formas de combate, da energia guerrilheira. Quem estuda a sério aqueles anos sabe que não foi assim.
O movimento democrático lutava pela volta dos guerrilheiros exilados, pela soltura dos presos e, especialmente, contra a tortura. Mas os grupos políticos remanescentes da luta armada só decidiram aderir à assim chamada via pacífica quando o regime já estava, na prática, batido, depois da revogação do AI-5 em 1978. Batido exatamente por meio da tática e da estratégia que as organizações guerrilheiras recusavam.
São os fatos da História do Brasil. É natural que os personagens, uma vez em posições de poder, tentem reescrever as coisas. É humano. Mas os fatos são mesmo teimosos.
Lula tem uma vantagem sobre os adversários: o presidente não possui veleidades intelectuais, esse traço pequeno-burguês. Encontradiço especialmente em jornalistas.
Pode ser a favor do aborto num dia e contra no dia seguinte, pode estimular hoje a militância contra a criminalização da droga e demonizar amanhã o apoio de um adversário à descriminalização. Pode apoiar incondicionalmente uma greve de funcionários públicos contra um governo tucano e carimbar como altamente inadequado o grevismo contra o governo dele. Pode exigir num dia o bloqueio continental contra Honduras e atacar minutos depois o bloqueio americano a Cuba. Sempre em nome da soberania das nações.
Políticos não mudam de ideia a partir de bons argumentos. Eles selecionam os argumentos que servem à conveniência do momento. Convém agora a Lula apresentar Dilma como mártir da suposta ausência de alternativas fora da luta armada, para quem desejava combater o regime de 1964. É um antídoto às acusações de “terrorismo” feitas contra ela.
Nunca houve de fato terrorismo no Brasil. Houve guerrilha. São duas coisas bem diferentes. E a guerrilha foi uma opção, não uma necessidade. Foi um caminho irrigado pelo exemplo das revoluções cubana e chinesa. A tentativa de um atalho para o socialismo.
Nas guerras -que são apenas a continuação da política por outros meios- a primeira vítima é a verdade. Aqui não está sendo diferente.
Mas quem se importa com isso?

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