domingo, 7 de março de 2010

MUNDO: Tragédias familiares comovem o Chile e ajudam a arrecadar fundos

Do UOL
Rodrigo Bertolotto, em Pichilemu (Chile)

A garota de 13 anos que viu a família toda ser engolida pelo mar. O paramédico que perdeu mulher e filha e não para de socorrer outras pessoas para não lembrar sua pena. O casal que ficou preso entre o concreto de seu apartamento e fez juras de amor porque achava que não ia sobreviver. O pai que avisou a filha do perigo de tsunami, mas ela confiou nos marinheiros que estavam com ela.
O Chile agora prefere pensar na sua reconstrução, mas também não se cansa de chorar as tragédias particulares em meio ao desastre coletivo. Os jornais e as TVs aparecem com um drama a cada dia entre as centenas de vítimas do terremoto e do maremoto. No programa televisivo Chile Ayuda a Chile, que contou com a participação de políticos e artistas e arrecadou quase US$ 60 milhões, essas histórias desfilaram para comover os espectadores compatriotas.
Nenhuma pareceu mais triste que a história da garota Consuelo Molina, de 13 anos. Única sobrevivente de seu grupo familiar, ela perdeu 11 parentes no tsunami, incluindo mãe, irmão, tios e primos.
O grupo acampava no balneário de Curanipe quando aconteceu o tremor. Consuelo alertou os parentes, que não acreditaram que se seguiria um maremoto. As ondas vieram. Consuelo se agarrou a um galho de árvore e só largou quando a água baixou.
Em estado de choque, ela presenciou o enterro de quatro deles, enquanto amigos músicos tocavam canções folclóricas chilenas, homenagem aos tios dela que eram cantores. O olhar perdido da garota se debulhou em lágrimas quando uma das músicas deu melodia à letra que caia como uma luva: “a vida não vale nada, começa sempre chorando e do mesmo jeito se acaba.”
Outra tragédia em meio à catástrofe chilena é a do paramédico Luis Gatica. Ele perdeu a mulher e a filha pequena no tsunami e está trabalhando incessantemente há uma semana ajudando outros atingidos. "Não paro para não pensar no que me aconteceu", afirmou para as câmeras dos canais chilenos, com repórteres que perguntavam e perguntavam atrás de um choro. Mas Gatica se segurou e voltou ao trabalho assim que os microfones se desligaram.
Outra história tem como vilão os problemas de comunicação da Marinha chilena, que não denotou o alerta de maremoto. “Papai, você sabe muito bem como funciona o sistema...eu estou com os marinheiros aqui do meu lado. Eles não receberam alerta. Então, relaxa.” Andrés Ayendi lembra as últimas palavras que ouviu ao telefone da filha bióloga que estava na ilha Robinson Crusoé, no meio do oceano Pacífico.
Paula, 28, estudava as lagostas tão típicas da região e base da economia local. Minutos depois de desligar o telefone, as ondas invadiram o setor, deixando dez mortos e quatro desaparecidos. Paula foi uma das vítimas. A mãe, Ximena, não vê TV, lê jornal ou escuta rádio. Sua dor individual já é o suficiente. “Que autoridades nós temos que não avisam dessa catástrofe? Precisou uma garota de 12 anos dar o alerta tocando o sino. Mas foi muito tarde”, criticou, lembrando outro caso marcante no arquipélago de Juan Fernandez.
Martina Maturana virou a heroína local ao evitar uma tragédia maior por lá. Logo que foi acordada pelo terremoto, a menina pediu para o pai ligar para seu avô no continente. "Como ele disse que lá tremeu também, imaginei que o epicentro foi no mar. Saí de casa para avisar as pessoas", contou a menina à imprensa do país.
Martina correu à praça e tocou um sino de alerta. A maioria dos 800 habitantes e 50 turistas se dirigiu para o morro. "Ela sempre quis ser famosa. Agora ela conseguiu e por um bom motivo", disse a mãe da garota.
Já em Concepción, a cidade mais atingida pelo terremoto, o infortúnio veio do casal Ricardo Chandia, 26, e Karen Gollen, 23. A dupla ficou cinco horas presa entre os concretos do apartamento de 12º andar para o qual tinha se mudado há dois dias. “Estávamos conscientes, e me parecia injusto morrer desse jeito. Eu pensava: "por que não morremos com um golpe só?´”, disse Ricardo em entrevista para o periódico “La Tercera”. Eles foram salvos por um bombeiro na manhã posterior ao tremor.
Já o jornal popular “Las Últimas Notícias” batizou de “la serenita” (a sereiazinha) a linda estudante Carla Mellado, de 19 anos, que foi tragada pelo mar junto com seu namorado na ilha Mocha.
Mas no meio de tantas mortes um nascimento também ganhou espaço nas páginas dos jornais. Paulina Cerda, 28, teve seu filho Vicente apenas três minutos antes do terremoto que sacudiu o Chile às 3h34 da madrugada de sábado. “Foi só o médico colocá-lo sobre o meu peito e depois retirar para examinar que começou a tremer tudo. A enfermeira saiu e não a vi mais aquela noite”, relatou ao tablóide “La Cuarta”.
São todas histórias que servem para dar uma dimensão sentimental a uma catástrofe natural que se contabilizou até agora por estatísticas de mortes, presos por saques, horários de toque de recolher e prejuízos econômicos. Falta ainda criar uma escala Richter para medir a dor.
Tradução: Enviado especial do UOL Notícias

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