
Do UOL
MARTA BARBOSA
Se João Ubaldo Ribeiro divulgasse por aí que seu novo livro, "O Albatroz Azul" (lançamento da Nova Fronteira), nasceu de uma sossegada observação das ruas da ilha Itaparica, onde nasceu e para onde o escritor retorna a cada janeiro, todo mundo acreditaria. O romance tem a despretensão de um observador em férias, que assiste e anota, sem nenhuma ambição de tornar aquilo que se vê em algo extraordinário.
Difícil seria imaginar que, em meio a histórias e pessoas tão simples fosse possível haver, fora das páginas, tanta sonoridade nas palavras e tanto equilíbrio na prosa. E aí a gente entende a diferença entre qualquer um que olha e um contador de histórias talentoso como Ubaldo. As histórias e as pessoas continuam simples, mas o jeito de contar é tão fascinante...
"O Albatroz Azul" é um grande retorno do autor baiano - o romance anterior, "Diário do Farol" (Nova Fronteira), foi lançado sete anos atrás. Um livro que soa como uma reconciliação com a vida banal, e nem por isso menos bela que a dos grandes romances.
Ubaldo usa sua memória de uma lendária Itaparica na construção de personagens tão triviais que parecem velhos conhecidos. Tira humor de coisas simples ao ponto de parecerem estranhas ao olhar urbanizado. Como neste trecho, em que explica o futuro de duas argolas de ouro da família. "... ou que fossem presenteadas a Altina, a fim de que ela as derretesse e usasse o material para botar o dente da frente, cuja ausência lhe realçava a cara de preá."
Tertuliano, por exemplo, é o único leitor dele mesmo. Desde mais ou menos os 20 anos, ele anota tudo que lhe interessa num caderno, que depois relê e, ao final do ano, queima. É por meio desse personagem, Tertuliano, que o autor propõe uma leitura bastante inteligente de velhice. Ubaldo compara o estado de envelhecer ao de juvenescer - ambos cheios da mesma inquietude das buscas incansáveis do homem.
De qualquer forma, o que permanece ao final de "O Albatroz Azul" é o apreço pelas coisas silenciosas. Um encantamento pelo mundo belo e simples. E uma lindíssima homenagem a Itaparica, desenhada de forma singular: "Os cheiros são uma mistura almiscarada de maresia, peixe fresco, comida de tabuleiro e mingau, café torrado, bosta de vaca, lama do mangue, melaço de cana, aroma de flores". Nem um ano sentando no mesmo banquinho de praça de Ubaldo seria suficiente para repetir.
MARTA BARBOSA
Se João Ubaldo Ribeiro divulgasse por aí que seu novo livro, "O Albatroz Azul" (lançamento da Nova Fronteira), nasceu de uma sossegada observação das ruas da ilha Itaparica, onde nasceu e para onde o escritor retorna a cada janeiro, todo mundo acreditaria. O romance tem a despretensão de um observador em férias, que assiste e anota, sem nenhuma ambição de tornar aquilo que se vê em algo extraordinário.
Difícil seria imaginar que, em meio a histórias e pessoas tão simples fosse possível haver, fora das páginas, tanta sonoridade nas palavras e tanto equilíbrio na prosa. E aí a gente entende a diferença entre qualquer um que olha e um contador de histórias talentoso como Ubaldo. As histórias e as pessoas continuam simples, mas o jeito de contar é tão fascinante...
"O Albatroz Azul" é um grande retorno do autor baiano - o romance anterior, "Diário do Farol" (Nova Fronteira), foi lançado sete anos atrás. Um livro que soa como uma reconciliação com a vida banal, e nem por isso menos bela que a dos grandes romances.
Ubaldo usa sua memória de uma lendária Itaparica na construção de personagens tão triviais que parecem velhos conhecidos. Tira humor de coisas simples ao ponto de parecerem estranhas ao olhar urbanizado. Como neste trecho, em que explica o futuro de duas argolas de ouro da família. "... ou que fossem presenteadas a Altina, a fim de que ela as derretesse e usasse o material para botar o dente da frente, cuja ausência lhe realçava a cara de preá."
Tertuliano, por exemplo, é o único leitor dele mesmo. Desde mais ou menos os 20 anos, ele anota tudo que lhe interessa num caderno, que depois relê e, ao final do ano, queima. É por meio desse personagem, Tertuliano, que o autor propõe uma leitura bastante inteligente de velhice. Ubaldo compara o estado de envelhecer ao de juvenescer - ambos cheios da mesma inquietude das buscas incansáveis do homem.
De qualquer forma, o que permanece ao final de "O Albatroz Azul" é o apreço pelas coisas silenciosas. Um encantamento pelo mundo belo e simples. E uma lindíssima homenagem a Itaparica, desenhada de forma singular: "Os cheiros são uma mistura almiscarada de maresia, peixe fresco, comida de tabuleiro e mingau, café torrado, bosta de vaca, lama do mangue, melaço de cana, aroma de flores". Nem um ano sentando no mesmo banquinho de praça de Ubaldo seria suficiente para repetir.
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"O ALBATROZ AZUL"
Autor: João Ubaldo Ribeiro
Editora: Nova Fronteira
Páginas: 240
Preço sugerido: R$ 39,90
"O ALBATROZ AZUL"
Autor: João Ubaldo Ribeiro
Editora: Nova Fronteira
Páginas: 240
Preço sugerido: R$ 39,90
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